sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Palavra, Epígrafe, Fala

Uma só palavra tua
E o viver monótono que me acompanha
Ganhará as cores do arco-íris,
Subirá as montanhas do Nepal,
Atravessará a Cordilheira dos Andes,
Cruzará o Canal da Mancha
E se perderá no Triângulo das Bermudas.

Uma só palavra tua
E o muro de Berlim que me rodeia cairá por terra,
Libertando-me das garras do inferno de Java,
Abrirá minhas asas para o vôo de Ícaro
E, queimando meus temores,
Fará pousar meus amores na clareira recém-aberta,
Desenhada pelo teu eterno sorriso de Mona Lisa.
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Epígrafe

Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
Lentas gotas de som no relógio da torre,
Fio de areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra azulando a pedra do quadrante
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre...

Homem, que fazes tu? Pra que tanta lida,
Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?
Procuremos somente a Beleza, qua a vida
É um punhado infantil de areia ressequida,
Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa...
(Eugenio de Castro)
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Fala

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade)
(Orides Fontela)

Um comentário:

Anônimo disse...

"Somos todos malucos. Quem não quer ver malucos, deve quebrar os espelhos" — Voltaire