sábado, 1 de março de 2014
Gotas
Tinha uma gota d'água.
Era uma simples gota, nada demais. E.
Eu queria tocar aquela gota, ser aquela gota.
Não, eu queria tocar aquela gota, até que ela escorreu, e então eu queria ser a gota, e correr. E outras gotas se juntaram e nós, todas gotas, crescemos.
Ah, a sensação de correr! E corar.
Mas aí eu vi outra gota pingar, e fiquei com inveja, e quis ser aquela outra gota. Ela estava mais alto, e portanto tinha mais caminho pra percorrer, e mais tempo também. Eu quis ser essa gota.Você já viu o caminho de uma gota?
Descer correndo muito longe sem folêgo sem parar sem desvios.
E parar.
Fazer voltas, ir e vir, quase horizontal...
Suave, Rápida, Louca.
Eu quis tocar as gotas, e percorrer seus caminhos com os dedos, até você virar e me perguntar o que eu estava fazendo. E eu responderia tranquilamente, "Sendo uma gota.".
Nas suas costas.
E então beijaria as gotas, e seus ombros, e sua nuca, e o cabelo molhado, e te abraçaria e percorreria suas costas com dedos suaves, como as gotas.
E depois voltaria ao meu canto, em paz.
Mas não fiz, e você virou e passou por mim, se enxugou, se vestiu, e dormiu.
E eu fiquei no meu canto, com sede.
De gotas.
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